Opinião: Fronteiras do futebol
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Mauricio Murad -SOCIÓLOGO DA UNIVERSO, MEMBRO DA ACADEMIA LANCE!, AUTOR DO LIVRO “PARA ENTENDER A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL”, EDITORA SARAIVA.
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O futebol é um dos maiores eventos de nosso tempo, paixão mundial, em diferentes países, em diversas sociedades. Um idioma globalizado, entendido e falado, por quase todo o nosso planeta. Motivação e desejo generalizados, especialmente entre crianças e jovens. É economia, mercado, negócios, sim, mas – historicamente falando – é antes de tudo sociedade, cultura, socialização. O futebol vai muito além das quatro linhas do campo, as suas fronteiras esportivas propriamente ditas, porque é identidade coletiva, simbologia, representação da vida social. Por tudo isso, a responsabilidade social dessa modalidade esportiva deve ser melhor estudada, mais aprofundada e entendida como base de políticas públicas de inclusão social, inserção econômica e integração humana, tanto para os nacionais, quanto para os estrangeiros, os imigrantes.
Na Copa do Mundo de 2006, a Alemanha inovou/popularizou/democratizou esse megaevento esportivo em vários aspectos, como por exemplo, as Fan Fests – enormes telões ao ar livre, que transmitiam gratuitamente os jogos, em tempo real, para quem não tinha ingressos -, que receberam um público de torcedores quase 7 vezes maior do aquele das platéias dentro dos estádios. O sucesso da iniciativa foi tão expressivo, que a partir daí a Fifa incorporou definitivamente as Fan Fests ao projeto das Copas do Mundo, o que aconteceu na África do Sul e no Brasil e já está planejado para a Rússia e para o Catar. Mas, não parou aí.
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Inovou/popularizou/democratizou também com a chamada “Copa do Mundo de Futebol de Rua”, inicialmente nos bairros carentes de Berlim habitados em sua imensa maioria por famílias pobres de imigrantes, que através da prática do futebol começavam a aprender e/ou melhorar o idioma alemão e a partir disso eram inscritos nas escolas regulares e a seus pais eram oferecidas propostas de trabalho. A abertura do evento foi no bairro de Kreuzberg, com a presença de Jürgen Klismann, treinador da seleção à época e de ministros de estado, do interior, do trabalho e da educação. “Temos de alcançar as crianças onde quer que elas estejam e através de sua motivação de criança. Daí a imensa importância do futebol, que se estende para toda a família”, afirmou Klismann em seu discurso. O Bayern de Munique foi uma das principais instituições incentivadoras e patrocinadoras desse projeto sócio-esportivo, com forte influência no Comitê Organizador da Copa, através do presidente Franz Beckenbauer.
Na atual conjuntura da Europa, o problema dos refugiados é uma das prioridades dos governos e já é considerado o maior e mais dramático desde a Segunda Guerra. Os países têm diferentes políticas em relação aos imigrantes ainda não legalizados, inclusive as mais duras e radicais. A Alemanha é tida como a nação que apresenta a mais generosa e humanitária política para os refugiados da atualidade e o futebol participa diretamente de forma intensa e articulada com essas políticas públicas de integração dos imigrantes.
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Deste modo, reedita um processo que tomou corpo no Mundial de Futebol de 2006 e foi aprofundado e institucionalizado ao longo da última década. São ações afirmativas das comunidades locais, para absorver os imigrantes não como inimigos a serem abatidos, mas enquanto trabalhadores a se incorporarem no mercado laboral, e seus filhos como estudantes regularmente matriculados no ensino formal e em atividades artísticas e desportivas. Há problemas, é claro, e não poucos, mas esta aponta para a melhor das perspectivas e assim é entendida, de um modo geral, com diferenças e conflitos de opinião, é evidente, pelos governos, pelas instituições e pela população.
Berlim é historicamente uma cidade esportiva e musical e se orgulha deste perfil; mantém e incentiva esse valor nas ruas, nos bares, nas praças, nos estádios, nos teatros, nas escolas, nas universidades e é referência para todo o país. A cidade fica ainda mais bonita com essa atmosfera, que atrai investimentos e turistas, ativando os negócios locais, a economia nacional, gerando assim empregos e renda. Muitas vezes com base na autogestão, os programas esportivos e artísticos voltados para a população imigrante procuram incentivar os jovens a participarem de atividades de reeducação ambiental, artística e esportiva visando à melhoria das suas condições sociais de vida, bem como a integração de suas famílias nas culturas da cidade. São projetos bem interessantes e permanentemente submetidos a processos de avaliação, a fim de serem aperfeiçoados superando falhas e equívocos.
Agora os jornais anunciam que o Bayern de Munique vai apoiar os refugiados que estão chegando à Alemanha, em situação caótica, com o aporte de 1 milhão de euros e um acampamento de treinamentos especiais, conforme anunciou o presidente do Conselho Diretivo, o ex-jogador Rumenigge, que afirmou ainda que o clube vê esta ajuda como parte importante de sua responsabilidade social. Os jovens refugiados irão treinar na Cidade Esportiva do Bayern recebendo material esportivo, orientação educacional, além de estudarem a língua alemã. As autoridades do governo receberam com satisfação a iniciativa e aplaudiram-na como exemplar e disseram ainda que a ideia deveria ser acompanhada por outras instituições locais e nacionais. Que o futebol multiplique e continue dando esse bom exemplo, de um fair play político, social, cultural e sobretudo humanitário!